e Ficar Assim Mesmo
Então é aqui.
Não sei bem o que eu esperava. Cidade nova tem sempre esse cheiro de possibilidade que as pessoas romantizam demais em livro e em série, e que na vida real é só asfalto quente e o inconveniente de não saber onde fica nada. Cheguei com o Felipe, as malas que a gente julgou necessárias e a determinação coletiva de não ligar pra nenhum dos dois pra pedir absolutamente coisa alguma. Esse foi o combinado. Continua sendo.
A família tem dinheiro. Isso nunca foi segredo, nunca vai ser. O sobrenome Astoria-Gianni abre portas em lugares que eu nunca vou querer entrar — jantares onde as pessoas sorriem pra câmera e se detestam por baixo da toalha de linho, reuniões onde a pauta é manter aparência e nunca, jamais, parecer humano o suficiente para ser vulnerável. Eu cresci dentro disso. Aprendi a ler cada subtexto, cada sorriso calculado, cada silêncio estratégico. E aprendi, também, que eu não tenho estômago pra fingir que aquilo é vida.
Medicina, aliás, eu quero de verdade. Isso precisa ficar registrado porque eu não suporto quando as pessoas assumem que é obrigação da família — não é, ou pelo menos não é só. Existe algo muito específico em entender o que está errado dentro de um corpo e ter as ferramentas pra consertar. Olhar clínico é a coisa mais honesta que eu conheço: ou tem ou não tem, e o corpo não mente. Gente mente o tempo todo. Tecido biológico, não.
Mas a universidade não paga o apartamento, e receber dinheiro deles é uma moeda de troca que eu me recuso a aceitar. Então eu e o Felipe saímos procurando. Encontramos a Dudark Motors.
Sobre o Felipe: tem gente que não entende a dinâmica de irmão gêmeo e eu já desisti de explicar. Não é co-dependência, não é falta de individualidade, não é nenhuma das coisas que os adultos da família sempre tentaram nomear quando olhavam pra gente com aquela expressão de preocupação polida. É que a gente é feito do mesmo caos, do mesmo cansaço, da mesma recusa em baixar a cabeça pra quem não merece esse respeito. Somos barulhentos de formas diferentes — ele tem um modo de ocupar espaço que é instintivo, quase natural demais, e eu tenho a tendência de identificar o ponto exato onde uma situação pode explodir e ir na direção oposta da prudência.
Juntos somos um problema considerável. A família sabe disso. Por isso tentaram, durante anos, criar distância entre nós de formas sutis — atividades separadas, amigos aprovados individualmente, a sugestão constante de que seria bom para o "desenvolvimento individual" de cada um. Não funcionou. Chegamos aqui juntos e é assim que vai ser.
Descobri rápido que a precisão que uso pra aprender um procedimento cirúrgico é a mesma que uso pra diagnosticar o que está errado num motor. As mãos fazem a mesma coisa — procuram o problema, isolam, resolvem. Minha mãe entraria em colapso se soubesse que estou chegando em casa com óleo debaixo das unhas. Essa imagem me satisfaz mais do que devia.
A cidade ainda não me conhece. A Mar Alamo ainda não sabe exatamente com quem está lidando — vai descobrir na velocidade natural das coisas, que na minha experiência é bastante rápida. Não tenho plano de me encaixar em nenhum molde que não escolhi. Tenho plano de aprender medicina, pagar minha metade do aluguel, e não dever nada pra ninguém com o sobrenome Astoria que não seja eu mesma.
É um começo.